A experiência ao volante cria confiança. Mas também cria o piloto automático — e é aí que mora o risco.

Existe um paradoxo silencioso no trânsito brasileiro que raramente é discutido: quanto mais tempo uma pessoa dirige, maior a tendência de subestimar o risco.
Não porque motoristas experientes sejam imprudentes. Mas porque a experiência cria automatismos. E automatismos, por definição, operam sem consciência.
O cérebro humano é extraordinariamente eficiente. Quando uma tarefa é repetida centenas — ou milhares — de vezes, ele a transfere do sistema consciente para o sistema automático. Isso libera recursos cognitivos para outras coisas. É uma função evolutiva brilhante.
O problema é que dirigir não é uma tarefa que se repete em condições idênticas. Cada trajeto tem variáveis novas. A chuva que não estava prevista. O caminhão parado sem sinalização. O cruzamento que você já fez mil vezes — mas desta vez há uma criança correndo.
Quando o motorista experiente opera no piloto automático, ele processa essas variáveis com menos atenção do que um motorista novo. Não porque seja menos capaz — mas porque seu cérebro aprendeu a economizar esforço naquela rota.
O que a pesquisa mostra
Estudos sobre comportamento do motorista mostram consistentemente que motoristas com mais de dez anos de habilitação têm maior propensão a:
- Exceder os limites de velocidade em trechos conhecidos
- Reduzir a distância de segurança do veículo à frente
- Realizar ultrapassagens com menor margem de segurança
- Subestimar os efeitos da fadiga na própria capacidade de condução
Não por descuido consciente. Por confiança acumulada que se transforma em excesso de confiança — um dos dez erros fatais mais documentados no trânsito brasileiro.
A rota conhecida é a mais perigosa
Há um dado contraintuitivo que todo motorista deveria conhecer: a maioria dos acidentes graves não acontece em estradas desconhecidas. Acontece em rotas que o motorista percorre regularmente.
A explicação é simples. Na rota desconhecida, o cérebro está alerta. Está processando, classificando, antecipando. Na rota conhecida, ele relaxa. E relaxar ao volante é exatamente o oposto do que a segurança exige.
O motorista que percorre o mesmo trajeto todo dia para o trabalho está, paradoxalmente, em maior risco do que o motorista que está dirigindo em uma cidade que nunca visitou.
O que fazer com esse conhecimento
A resposta não é criar ansiedade artificial em cada viagem. É desenvolver o hábito de classificação ativa do ambiente — independentemente de quantas vezes você já percorreu aquela estrada.
Classificar o ambiente significa perguntar, em cada trecho: que zona é essa agora? As condições são as mesmas de sempre — ou algo mudou?
Essa pergunta, feita habitualmente, reativa o sistema consciente. Tira o motorista do piloto automático e o coloca de volta no assento do condutor — não apenas fisicamente, mas cognitivamente.
É um hábito. Como todo hábito, exige prática deliberada para se instalar. E como todo hábito de segurança, ele só mostra seu valor quando mais importa — no momento em que algo muda, e você percebe antes de estar dentro do problema.
Alex Furtado é especialista em segurança viária e comportamento do motorista, criador do Sistema ZDS/ZDA/ZDP e autor do livro Viaje com Segurança. O Curso Protocolo ZDS — Certificação Nível A está disponível em protocolozds.com.br.